O Mínimo do Salário
Por Doca Ramos Mello
Fico constrangida, mas vira e mexe cá estou eu para defender o governo da terrível Maldadebras... Acho que tem gente que só veio ao mundo para aborrecer nossos abnegados governantes, pois é um pessoal que vive de fazer futrica, de contestar as benemerentes ações dos políticos e o que eles tentam fazer de bom para a sociedade, é uma raça muito cretina... Não que o Brasil não tenha potencial para crescer e aparecer, muito pelo contrário, o problema é a gentinha que atravanca o progresso, como bem provou Dona Erenice, cujos filhos estavam subindo na vida à custa de certa ‘taxa de sucesso’, quando veio a canalhada, botou a boca no trombone e aí, babau seu Nicolau. Depois, reclamam dos índices disso e daquilo, do Enem, das enchentes, da violência e sei lá de que mais nessa vida, esse pessoal é muito FDP.
Recebi aqui um arquivo relatando, com detalhes, o soldo de cerca de R$ 250 mil mensais ao qual passou a fazer jus V. Exa. Tiririquíssima, porque a Maldadebras não se conforma com o fato de ele receber tais caraminguás como nobre deputado. Ora bolas, o povo quis, o povo votou, o povo paga, ué! E ele merece, pois assumiu a vaga na cota dos ‘sem leitura’, defendida a peso de ouro por O Cabra, ‘aquele’, que Deus me perdoe a menção, grande incentivador do analfabetismo de resultados. Mesmo tendo esquecido de estender a regalia aos serviços de gari, por exemplo, para cuja função, necessário se faz apresentar a conclusão do segundo grau – este país é preconceituoso, para ganhar um troco é preciso diploma universitário, PHD, MBA, inglês fluente, informática, crochê, especialização em costura francesa para sapatos de couro, conhecimentos de ciência, tecnologia, química, física, matemática, esperanto, cabala, cultura renascentista, egiptologia, etc. Para ser político bastam lábia, mão grande e papo furado. E um bom slogan, afinal, pior do que está não fica.
Bom, mas a polêmica do momento é uma coisa feinha chamada Salário Mínimo – detesto discutir o rodapé da vida, me parece tão mesquinho, não sei por que insistem nesses assuntos, oh, pobreza!
A Maldadebras finge não entender que dá muitíssimo bem para o trabalhador viver com 545 paus mensais num país que oferece educação pública de primeira, serviços excelentes de saúde pública, segurança, lazer e o céu também, tudo pago com a grana infinita dos impostos absurdos que o governo cobra da sociedade. Que marmota é essa?! Onde esse pessoal quer chegar? Ara, ara, ara, eu até fiz uns cálculos e tenho certeza de que dá e sobra, se bem que coloquei minha santa mãezinha de fora dessa planilha porque só um dos remédios que ela toma diariamente custa R$ 300, de sorte que uns e outros na mesma situação, ou em condições de gastos até mais avantajados, não cabem no tal salário, mas são exceções, exceções – porque os remédios nunca são tão caros assim, AAS, por exemplo, resolve praticamente tudo e custa uma merreca, porém mamãe é exagerada, entendem?
Pois bem.
O salário proposto dá perfeitamente para pagar casa, comida, roupa, diversão e arte, basta fazer um estudo e constatar isso com facilidade, afinal os aluguéis são baratos, há o programa Minha Casa Minha Vida, para que todos adquiram a casa própria a preço de banana nanica, a cesta básica custa dez réis de mel coado, luz, gás e água são de graça, etc., etc. Ocorre que o pessoal quer passar fim de semana na praia, viajar a toda hora (pobre tem mania de visitar os parentes, ô inferno!), conhecer Paris, comer comidas exóticas, ir a shows da Ivete Sangalo, comprar bolsas de grife, frequentar restaurantes badalados, usar roupas da Nike, essas coisas... Assim, claro que não dá, óbvio que vai faltar grana, não há receita que suporte tamanho gasto – algumas coisas na vida são para o Abílio Diniz, o Eike Batista, vamos combinar... Uma vida monástica quem sabe equacione melhor a questão e, de quebra, ainda pode melhorar o mundo, que tanto necessita de orações e sacrifícios. Regime de faquir também poderia ser uma excelente alternativa para o país, com certeza. O que não se pode é ficar na gastança sem fim, pondo fim nas economias, desperdiçando dinheiro a rodo para fazer cirurgia plástica ou comer cereal pela manhã, almoçar todos os dias, comprar água de cheiro, carne de primeira, queijo requintado, carro importado – ou seja, estamos falando de uma vida boa, porém sem grandes luxos. Será que não dá para ser menos perdulário?
Urge educar o povo para viver bem, porém de certa forma mais modestamente. É simples: não gastar além das possibilidades, fazer as contas, ser parcimonioso nos supérfluos. E assim, levar a vida na maior boa, sem atropelos. Alguns estão advogando o arredondamento da cifra para R$ 550,00 (são uns demagogos!), mas considero irrelevante, bobagem mesmo – o que se pode fazer com 5 mangos a mais? Comprar pirulitos para as crianças, talvez... Todavia, doce favorece a cárie dentária, melhor evitar – R$ 545 e estamos conversados.
* Li agorinha no Estadão que o Filho de Dona Lindu quer ‘desencarnar da Presidência’... Sou meio burra, julguei que já tivesse desencarnado em 31 de dezembro do ano passado, mas em todo caso, como cidadã brasileira grata aos céus pela sua saída, quero cooperar com ele. Eu me disponho a lhe pagar uma passagem com estadia de dois meses no Egito (bem no centro nervoso do rolo), onde o desencarnar pode ser mais rápido, pois se trata de local aprazível para férias e com o qual ele deve se identificar bastante, por conta daqueles roupões que nós pagamos para que usasse por oito anos, Deus nos defenda...
