Muito Prazer!

Por Doca Ramos Mello

_ Bom dia, companheiro, tudo na boa?

_ Bo...bo...bom di..dia... Mas...

_ Sou Adrião Ferreira Ferrão, o Escorpião, seu colega deputado, prazer em conhecê-lo.

_ Meu colega deputado?!

_ Sim. Fui eleito com muitos votos da minha classe, o colega deve saber que nós, escorpiões, estamos por todos os lados na Câmara, ou seja, nas gavetas, nas roupas, nos sapatos, no teto, até nos teclados dos computadores, de sorte que minha eleição foi assim um advento das nossas lutas de classe, uma consequência natural das movimentações sociais da minha gente. Sou líder do MEST – Movimento dos Escorpiões Sem Teto, tipo Zé  Rainha ou Stédile de rabo, queremos a reforma agrária com assentamento dos companheiros em seu habitat natural, sem interferência humana. O homem enche muito o saco, se me permite uma pequena deselegância.

_ Ma...mas....

_ Perdão, companheiro, alguma coisa o aflige? Pode se abrir comigo, sou sangue bom.

_ Escute aqui, camarada, eu...

_Camarada, não. Adrião Ferreira Ferrão, o Escorpião. Deputado eleito pelo PEC de Bras - Partido dos Escorpiões de Brasília. Não vou dizer ‘seu criado’, como é de praxe nas apresentações, porque o colega sabe que nós, escorpiões, não somos exatamente afáveis, pelo contrário, temos sangue bom, porém quente.

_ Peralá, desde quando escorpião se elege?

_ Desde que somos habitantes das Câmaras aqui em Brasília e adquirimos nossos direitos, temos intimidade com os funcionários, sabemos das coisas como funcionam por aqui e decidimos ter um de nós para representar nossos interesses, ora essa. Aqui tem palhaço, ladrão, sem-vergonha, 171, larápio, rato, mensaleiro, cobra, quadrilheiro, picareta, apaniguado, oligarca, sanguessuga, aloprado, vagabundo, tubarão, encosto, canalha, ignorante, estelionatário, safado, malandro, ordinário, pusilâmine, enfim, uma fauna. Faltava um escorpião. Pois bem, não falta mais, é isso.

_ É o fim do mundo!

_ É nada. Baratas e ratos já estão se organizando em sindicatos, eles também vão querer uma fatia desse filé, tem p’ra vocês, tem p’ra nós, também, é a lei das igualdades raciais, vou até falar com o Padilha, quero arrumar uma boquinha para meu filho na Saúde... Nós temos O Cara como ídolo, ZéD como lema, Ideli como musa inspiradora, a mulher de Roriz como ghost writer de nossos discursos, Delúbio como tesoureiro e...

_ Delúbio...?!

_ O nobre colega ainda não escutou a fala do presidente do PT? Pena eterna não existe, meu caro, todo mundo merece perdão, por esse princípio até o Fernandinho Beira-Mar já está escalando uma boa defesa para sair do xilindró e comandar com mais espaço os negócios. É isso aí, oportunidade para as classes emergentes, já. Nós, escorpiões, sempre fomos vistos com muito preconceito pela sociedade, o que inventaram de balelas sobre nosso povo é brincadeira, existe até a conversa de que um sapo teria dado carona em suas costas a um nós para atravessar o rio, o colega sabe que temos dificuldade com o esporte do Xuxa... Porém, uma vez na outra margem, meu antepassado teria matado o sapo sob a alegação de ser aquela atitude uma coisa ‘da sua natureza’, pode isso? Que deturpação da verdade!

_ É uma fábula.

_ Sim, sei disso. E foi ensinada nos bancos escolares, depois virou uma porcaria chamada autoajuda, mas nos marcou muito, portanto é preciso rever essa história, como tantas outras. Ou seja, tal como negros africanos, a quem o ex-presidente pediu perdão, estamos aguardando uma manifestação de V. Exa. Camarada Rousseff a nosso favor, queremos uma retratação pública, indenização histórica, direito a cotas, enfim, tudo, tudo, tudo, incluindo pensão vitalícia igual a do Ziraldo e nova nomenclatura. Porque o termo ‘escorpião’ tem uma carga negativa imensa, nossos jovens sofrem com isso, daí vem a rebeldia, a violência, a cocaína, é o caos. Então, como eu ia dizendo, a minha eleição a deputado é um marco de toda essa ação para recuperar a autoestima e valorizar o escorpião. Temos o apoio de Narcisa Tamborindeguy (ai que loucura!), do escritor Luis Fernando Veríssimo, da Bruna Surfistinha, do Carlinhos Brown e tantos outros nomes badalados, até Adriano, o Imperador, vai fazer manifestação a nosso favor, no próximo jogo do time dele. 

_ Barbaridade...

_ Barbaridade é ter de invadir paletós, computadores e gavetas em busca de alimento, meu caro colega, o Fome Zero não contemplou a minha turma, jamais recebemos o Bolsa-Família, são anos de abandono social e até afetivo. Daqui p’ra frente, tudo vai ser diferente, como canta o Rei. A gente quer comida, diversão e arte, sacou?

_ Estou pasmo!

_ Ah, nem vem que não tem. Pasmo como, pasmo por quê? Alguma coisa ainda é capaz surpreender um brasileiro, mais ainda um político brasileiro? Isso daqui é a casa da mãe Joana. Conta outra, sua cobra.

_ Co...co...cobra, eu?

_ Com perdão pela comparação, a cobra que me desculpe. Mudando de pato para ganso, tenho um projeto que pode render milhões de reais de lucro para cada um de nós, basta apenas que os colegas concordem em assinar, é...

_ Tô dentro, Adrião, meu parceiro, pode contar comigo. É um prazer ter um novo companheiro antenado com as necessidades do país, aqui estava mesmo faltando um escorpião, bem-vindo, bem-vindo. Vou descolar uma comissão p’ra você, quer se filiar ao meu partido? Que tal um uisquinho no motel do Novais daqui a pouco? Você precisa conhecer as mocinhas, a suíte, hummm...