Momento de Reconhecimento

Por Doca Ramos Mello

            Quero, de público e com muita ênfase, fazer um agradecimento especial.

            Sim, sei que os nossos são tempos de ingratidão intensa, não é usual agradecer, mas é preciso reverter esse hábito de simplesmente virar as costas sem dizer ‘muito obrigada’ou mesmo fazer algum gesto que demonstre apreço pela contribuição alheia. É a gentileza de maneiras que vem rareando, rareando perigosamente e dando espaço ao que há de pior nos relacionamentos humanos, como a descortesia, a grossura, a má educação. Como diria minha falecida sogra, ‘é o berço’. E berço, convenhamos, não aceita reparos, ou seja, quem foi embalado com música de baixa categoria sempre vai adorar um pagode indecente, detestar ler, etc., etc. É o DNA.

            Voltemos à ingratidão.

            Eu disse que queria fazer um agradecimento. Pois bem.

            Quero ser a primeira brasileira a me ajoelhar diante do Homem Incomum e lhe demonstrar a minha eterna gratidão por seu sacrifício – ô sujeito mais santinho, é a própria versão masculina maranhense de Irmã Dulce, oh, Senhor, quanta bondade e renúncia tem feito o pai de Roseana em prol do populacho ingrato, oh, céus!

            Primeiro, deixou de seguir o destino fácil do homem comum, não trabalhando feito um mouro na construção civil, na escola, na farmácia, no comércio, na fábrica, nos esgotos, na pensão, na mina ou sei lá onde mais, abdicando de um rol de atividades deliciosas e muito bem remuneradas, que desprezou para se tornar um reles político. Reles porque, no Brasil, o político é sempre aquele cidadão que veste andrajos, vive mal, come indecentemente, não tem casa nem dinheiro, uma pessoa que se despe das ilusões particulares, de seus sonhos de se aposentar pelo INSS depois de séculos de suor, como nós, os felizes mortais. O político pode dar uma voltinha no cargo e se retirar com vencimentos altíssimos, como atualmente o fazem ex-governadores, por exemplo – tem canseira maior, vida mais horrenda?

Depois, o dedicadíssimo abandonou o anonimato doce e nomeou  setecentos prédios públicos com nomes de gente de sua família, no Maranhão, de sorte que seu bom tronco foi enlameado em placas grosseiras de hospitais, praças, becos, escolas, fóruns, que abnegação! Viu, então, seu codinome na boca maldita do povo, coitado, todo mundo metendo a lenha nas homenagens que fez aos seus, emprestando alcunhas íntimas para rodar em línguas imundas de gente ingrata, que sina triste!

            Um dia, o Homem Incomum colocou a filhinha querida de saúde frágil para, também ela, se sacrificar pelo povo, mais uma santa criatura. E não é que descobriram uma montanha de dinheiro inexplicável nas empresas da mocinha? Aí, meteram a lenha na desgraçada, nem sei como seu coraçãozinho resistiu a tanta ingratidão. Felizmente papai gastou uma fortuna para que ela sentasse em algum trono, no qual a linda só faz dar o duro por um povo que não reconhece seu esforço, dia e noite, noite e dia, no prosseguimento à saga paterna. Às vezes, vai ao pai pedir que ele lhe explique por que a vida deles é tão sacrificada, tão árdua, por que ela não pode ser cabeleireira, garçonete, professora, cantora de barzinho, cozinheira, faxineira, enfim, ter uma profissão boa e bem paga como todas as demais mulheres nacionais, essas sortudas. É quando painho franze as sobrancelhas e lhe passa forte carão: “Como ousa questionar o papel que temos de desempenhar na sociedade? Envergonhe-se, filha, e trate de se eleger para ralar seus olhinhos amendoados na luta de seu pai, sem mais delongas, urge que dê seu sangue ao país, honrando nosso bom nome, ande!”  Assim, ela segue o exemplo de painho e vai levando sua pesada cruz como pode, algumas vezes com a ajuda do maridinho, sempre de olho no horizonte – é uma romântica.

            Ele, painho, de sua parte, tornou-se até unha e carne de seu desafeto-mor, o Rei da Cocada Preta de Garanhuns – foi mais um sacrifício dele, que nunca mediu esforços pela sua gente, tendo inclusive inventado umas diretorias cavernosas, nas quais abrigou um bando de apaniguados que, provavelmente, estariam desempregados até hoje, não fosse o seu desvelo. Foi presidente do Senado uma, duas, três vezes, tendo enfrentado até o drama de um colega amoroso que, pai apaixonado, arrumou uma empresa que pagasse a pensão da filha tida fora do casamento, oh tempos difíceis! Agora, dirige o Senado pela quarta vez, haja  sacrifício, haja cruz nas costas, haja mais diretorias e outros clones de Agaciel Maia, haja dores, haja sofrimento e mal-estar social, haja paixão pela dureza da vida política sem retorno financeiro. Sem contar a perseguição que um jornalzinho faz a seu filho mais velho, oh, o fardo desse homem não tem fim! Porém, que fazer, se o cidadão nasceu sob o signo da abnegação? Como renegar a missão que recebeu neste mundo?

            Lá vai ele, um ancião que, a se considerar o rigor da idade, deveria ser tocado pela vergonha do  sacrifício a troco de nada, pelo simples prazer de servir, servir, se servir, ooops, desculpem-me... Vergonha nenhuma, nenhuma, nem mesmo debaixo dos bigodes rigidamente pincelados de negro, coitadinho, um sem-vergonha completo. Deve ser duro viver assim, apaixonado e cego por uma atividade que, como ele mesmo diz, o afasta de seu bem-estar social – ele seria muito mais feliz vivendo como os demais mortais, claro -, mas a pessoa é para aquilo que veio ao mundo e o Homem Incomum tem consciência de sua tarefa. Assim, parte mais uma vez para a imolação, a face erguida, intocável, impávido colosso oligarca e cretino, o donatário do Maranhão, com casa de repouso no Amapá. Desçam a guilhotina, ele está preparado para o sacrifício derradeiro. (Nós, também, se Deus ainda conservar um pouquinho de sua nacionalidade brasileira, oremus).