Born to be... Franciscano!
Por Doca Ramos Mello
Dona Izildinha nunca conseguiu aprender a desenhar as letras. Achava aquele bordado uma gastura sem fim, as perninhas ora para cima, ora para baixo, as barrigas ora de um lado, ora de outro, as bengalas, os risquinhos, os chapéus, os frufus, os laçarotes, as minhocas, tudo enfim muito difícil de fazer com suas mãos toscas, coitada. Tempos outros, ainda mais duros para mulheres miseráveis, foi então ganhar o pão de cada dia conforme lhe permitiu a ocasião: sabia lavar, passar, cozinhar, limpar. Fez isso uma vida inteira em casas alheias. Sem carteira assinada, sem garantias, sem nada.
Hoje, aos oitenta anos, sobrevive aos achaques, às dores nas costas e nas juntas empelotadas pela artrite, à hipertensão e aos problemas cardíacos com caridosas doações de diversas famílias, vizinhos, amigos, gente que tem pena dela, muitos tão pobres quanto ela própria, porém solidários. Pega os remédios que consegue no postinho, vai ao pronto-socorro quando a coisa aperta, tem dia que almoça, tem dia que janta, mas almoçar e jantar num mesmo dia, só quando há campanha natalina, eleição ou algum outro evento. Mora, digamos assim, num barraco de encosta. Ou seja, está sujeita a despencar morro abaixo qualquer chuva dessas, engrossando as estatísticas trágicas de vítimas de enchentes. Mas, não esquenta a cabeça, diz já ter passado tanto perrengue na vida que agora tudo é lucro, ainda mais depois que ganhou da neta de uma antiga patroa a televisão pequena, mas muito boazinha, da qual não desprega os olhos – adora novelas e notícias. E agradece ao filho da Shirley, que fez o ‘gato’ para sua eletricidade mambembe.
E foi na televisão que Dona Izildinha soube do drama vivido por um senhor da mesma idade dela, um senador – o que faz um senador? Ela não sabe, mas como tem coração de gente boa, ficou com muita pena do homem descabelado que viu na tela, e seus olhos se encherem de lágrimas. Teria como ajudar? Fazer uma campanha? Arrecadar alimentos? Solidarizou-se, pobrezinha.
É que o tal senador, pela penúria da vida, foi obrigado a requerer um negócio chamado ‘pensão vitalícia’, oferecida a políticos que, como eles, exerceram o cargo de governador. Mesmo que por dois meses, vinte dias, quiçá horas – o Brasil valoriza muito o trabalho árduo dos homens públicos porque sabe que eles se sacrificam pelo povo, e isso nada tem a ver com o fato de que legislam em causa própria, como diz a maldita Maldadebras, ô gente, que praga!
Voltando à ‘pensão vitalícia’ do homem que tocou os sentimentos de Dona Izildinha...
É o seguinte: como sempre teve um discurso ético, o cidadão espantou um pouco as pessoas, afinal a Constituição não permite tal maracutaia, é, digamos, um jeitinho regional, malandragem, mumunha, somebody loves, como diz um humorista... Mas ele explicou que fez o pedido porque está numa ‘fase difícil’. E fase difícil, todo mundo sabe como é, Dona Izildinha mais ainda: falta grana para o buzão, a cesta básica não alimenta todo mundo, o remédio da sogra pesa no orçamento, a sola do sapato fura com uma regularidade do cacete, falta pão, falta feijão, sobra diarréia, aumentam as dívidas, essas coisas fúnebres da vida, que horror! Ciente do espanto causado, o senador deu detalhes do sofrimento da família por conta da miséria em que vivem: “Não posso ver minha mulher e filhos olhando os vizinhos viajando pelo mundo e nós não temos como nos sustentar” – que dureza! Ainda que, aos oitenta anos, Dona Izildinha calcule que os filhos do homem já não sejam exatamente crianças, na certa com um pouco de esforço e boa vontade, talvez pedindo autorização à justiça, quem sabe possam até trabalhar para ajudar o velho pai, não? Num caso assim de necessidade, moços de vinte, trinta anos (40?), podem ao menos fazer algum tipo de estágio remunerado, um bico, sabe-se lá, alguma coisa para desonerar o homem, gente!
A quantia irrisória que o senador está recebendo é de cerca de 24 mil mensais, um troco que não refresca nada, mesmo somados aos 26 mil mensais que ganha como senador – 50 mil merrequinhas e uns quebrados no total, haja fase difícil, gente! - portanto os filhos do pobre ancião devem continuar a passar altíssimos vexames na vizinhança da casa alugada – o homem confessou que não tem nem mesmo casa própria, é mais miserável que Dona Izildinha, dona de seu barraco na encosta, Virgem Santa!
A OAB está recorrendo contra o benefício, na opinião da entidade isso tem cara de Octoberfest nas costas do povo ou qualquer coisa do gênero. Enfim, querem tirar a azeitona da empada dos beneficiados, incluindo aí o senador em pauta. O próprio senador acredita que a OAB vai ganhar a causa. “É porque estou entre os beneficiados, sou pé-frio, nasci para ser franciscano”.
Dona Izildinha também, senador, ela também...
Daí o apoio e a vontade de poder ajudar de alguma forma, afinal o povo brasileiro é muito solidário, mais ainda o povo pobre, humilde, sem eira nem beira. Esse povo, prezado senador, tem antes de tudo estômago forte e paciência de Jó, do contrário, já teria virado a mesa deste país há um tempão...
