O SINDICALISMO NEGOCIADOR - Stephen Kanitz

O Sindicalismo Negociador

Images (67)Infelizmente, não se ensina nas faculdades como as empresas funcionam, e aí o trabalhador brasileiro tem uma falsa noção do que os seus líderes fazem e o que não fazem.

Darei o caso da Volkswagen, cujos dados históricos copiei da internet.

"Foi uma greve por 20% de aumento salarial imediato, mas que encerrou em si uma demanda muito mais ampla: a da recuperação da dignidade dos trabalhadores. 

 Foi uma greve surgida em um setor bastante específico (as empresas automobilísticas de São Bernardo), mas que imediatamente se irradiou", Lais Abramo.

Durou meses e ao contrário do que historiadores escrevem, não foram os sindicalistas que negociaram bem. 

Para entender tudo isto, é necessário conhecer a composição dos custos de uma empresa brasileira.

Mais ou menos, dependendo do setor, os custos de uma empresa se dividem assim:

40% Impostos Federais, Estaduais e Municipais.

30% Matérias Primas e Peças de 2.000 Fornecedores Externos.

 6% Propaganda em Jornais, Revistas e Televisão.

 8% Despesas Administrativas, Contábeis, Advocatícias, Pesquisas Técnicas, Treinamento, Auditoria, Análises Econômicas, Pesquisa de Mercado, os chamados de "colarinhos brancos".

 5% Despesas de Dividendos, a remuneração dos acionistas.

 2% Despesas Financeiras, Bancárias e Câmbio.

 9% Despesas com Trabalhadores de Fábrica.

Os trabalhadores de fábrica apesar de serem 9% das despesas, representam muitas vezes 30% dos colaboradores da empresa, e portanto a maioria como classe. 

Muitas vezes são os mais jovens, no início de carreira e iniciam na empresa no escalão mais baixo e com salários de início de carreira.

Apesar de serem 30% dos colaboradores da empresa, muitas vezes representam 70% dos colaboradores da fábrica, e podem impedir a entrada dos contadores, psicólogos, estatísticos, engenheiros, arquitetos, desenhistas, operadores logísticos, etc, que também trabalham na fábrica.

A grande maioria dos colaboradores da Volks não trabalha na Volkswagen Fábrica, mas nos escritórios regionais ou locais independentes como escritórios de advocacia, agências de propaganda, ou então são os vendedores autônomos, as concessionárias, os caminhoneiros, os colaboradores das empresas fornecedoras.

Todos estes trabalham em outros locais e dispersos pelo Brasil afora.

Dificilmente podem fazer "greve" ou se colocar na frente da "entrada" impedindo os demais de trabalhar. 

Agora vem o ponto crucial.

Quando estes 9% entram em greve, 91% do restante deixa de receber impostos, comissão de vendas, fornecimentos, honorários advocatícios, anúncios em jornais e TV e ficam preocupados. 

Depois de um mês em greve, a Volkswagen deixou de comprar peças, anúncios em jornais, descontar duplicatas no Banco e pagar 40% de impostos. 

Depois de dois meses em greve, estes 91% estão em pânico.

Ligam desesperadamente para o Presidente da Volkswagen, que me contou estes detalhes, dizendo: 

- "Cedam aos sindicalistas, dêem este aumento de 20% que estão exigindo, afinal 20% de 9%, são somente 1,8% a mais nos custos, e nós 91% não seremos mais prejudicados." 

Pres. da Volks -"Não é bem assim.

Nós da Volkswagen não ganhamos 91% das receitas, quem ganha isto são vocês.

Por todo este nosso esforço nós ganhamos somente 5%, e reduzir para 3,2% como os sindicalistas querem é uma redução de -36% na nossa remuneração." 

Para quem ganha 5% de dividendos, aumentar os custos em 1,8% é reduzir a remuneração dos acionistas para 3,2% ou seja uma redução de 36%.

Mas para quem ganha 91%, este aumento de custos significa uma queda de somente 1,97%, e é justamente daí que virá a solução.

Depois de 2 meses, o Presidente da Volks começa a receber telefonemas de fornecedores, TVs, jornais e concessionárias.

-"Dêem este bendito aumento, a gente topa dar 1,5% de desconto nas próximas remessas de matérias primas."

-"Dêem este bendito aumento salarial, a gente topa dar uma hora de anúncios na TV grátis."

-"Dêem este bendito aumento salarial, a gente aumenta o prazo de crédito para vocês nos pagarem."

Quem mais entrou em pânico na Greve dos Metalúrgicos foi o governo que recebe 40% e a queda de arrecadação começava a agravar o déficit público e gerar mais inflação.

-"Aqui é o Ministro da Fazenda.

Dêem este aumento salarial, seus idiotas, depois eu arrumo um empréstimo do BNDES, ou um incentivo qualquer de 1,8% para compensar."

-"Não podemos Sr. Ministro, seria um péssimo precedente.

 Vão estender esta greve para todas as demais empresas deste país."

O que de fato aconteceu.

-"Não brinquem comigo.

Terminem esta greve amanhã, e depois de amanhã a gente acerta, seus fornecedores acertam, as televisões acertam, não podemos continuar prejudicando 91%  da sua empresa, para o benefício de somente 9%."

Esta é a função do Presidente.

Conciliar os interesses difusos de todos os stakeholders da empresa, e não somente dos trabalhadores de fábrica.

O pior é que resolvido o problema, ter que ouvir via megafone:

-"Companheiros e Companheiras.

Conseguimos dobrar os executivos canalhas da Volkswagen"